Da Comunhão

Da Comunhão
"Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto." ( Rubem Alves) - Foto by Cássia Benedetti. Lançamento do romance "A Casa da Grande Colina"(Catia Schmaedecke)

Com escritores Marcelino Freire, Marcelo Spalding, Karnal, Carpinejar e Leticia Wierzchowski

terça-feira, 11 de julho de 2017

Desamparados

Pôr do Sol no Guaíba - Porto Alegre RS (Imagem de acervo pessoal)



Título: Desamparados (Obs.: Texto registrado com direitos autorais)
Autoria: Catia Schmaedecke
Revisão: Airton Ortiz 
(Módulo de Não ficção ministrado por Airton Ortiz na Metamorfose Cursos para o Curso Livre de Formação de Escritores - 2017)
Categoria: Crônica

          Admito, hoje tenho certa resistência em mexer com roupas. Após vinte anos empunhando uma tesoura de alfaiate, com a fita métrica pendurada no pescoço, inúmeros alfinetes espetados numa almofadinha de pulso, recortando a forma do corpo humano dia após dia em intermináveis rolos de tecidos, não podia ser diferente. De uns anos para cá é preciso um bom motivo para fazer-me escancarar as portas do armário e derrubar de uma só vez o vestuário de duas décadas.
       
       Foi numa fria manhã de junho, quando o toque persistente da campainha tirou-me da cama, me obrigando a encarar a menina em frente ao portão, que a ficha caiu.  Não foi preciso ouvir uma só palavra para que tudo fosse compreendido. Pele e ossos à mostra sob o tecido roto de algodão, ela se desesperava com a indiferença de algumas pessoas atravessando rápido para o outro lado da rua.
          
    Perdida no inverno porto-alegrense, a menina que não devia ter mais que quatorze anos, mantinha os braços cruzados sobre o corpo esquálido. Mas foi o queixo, foi o queixo o que mais me impressionou. Fazendo balançar os lábios arroxeados, duas linhas sinuosas ressecadas pelo frio e pela desidratação, foi o queixo tremendo involuntário, o denunciante da urgência de seu estado. Senti o golpe do vento gelado no rosto, demonstrando um poderio que não deixava espaço para indagações, tampouco meios para justificativas ou desculpas preconceituosas.  
     Numa reação natural de prestar socorro, tive ímpetos de puxá-la para dentro, abrigá-la da temperatura baixa, protegê-la da sociedade, reparar a sua falta. Em vez disso a fiz esperar do lado de fora enquanto corria pela casa em busca de qualquer coisa que pudesse servir como agasalho.
          
     Peguei o cobertor da cama do filho. Em seguida joguei numa sacola um punhado de biscoitos e o único pão restante do café da manhã.
        
     Entreguei-lhe tudo e enquanto ela se enrolava no cobertor, senti as perguntas morrendo na garganta. Eu queria saber, mas não podia perguntar. Queria descobrir como ela passava as noites, onde estavam seus pais, irmãos, algum responsável; mas o bom senso ou o que quer que fosse impedia-me de saciar a curiosidade: Não teria como ajudá-la. E por alguns instantes, ainda que contrariada, pude compreender o modo como a população costuma reagir aos moradores de rua.
          
      Ela pegou a sacola sem olhar o que tinha dentro, e desceu a ladeira enquanto eu a observava. Por certo já tão acostumada com a indiferença, seguia pela calçada úmida, esquecendo-se de agradecer.
          
       Voltei para o conforto dos travesseiros, tentando em vão retomar a leitura.
          
     É em nome do progresso que a indústria fabrica tudo em excesso, despejando todos os anos sobre o comércio, toneladas de produtos. Por mais ávidos que possamos ser como consumidores, precisaríamos de outras vidas para dar conta do exagero. Todos os anos as lojas se despedem do inverno, com seus estoques abarrotados. Todos os dias presenciamos restaurantes descartando sobras de alimentos. Em todos os momentos participamos como espectadores, quando devíamos nos perguntar até quando manteremos olhares cúmplices do desperdício.
          
    Até quando aceitaremos tudo sem contestar? 
    Até quando engoliremos as perguntas, e continuaremos sem respostas? 
   Até quando aplaudiremos o pôr do sol, o mesmo deslumbrante entardecer, que é também a causa do desespero de tanta gente?
          
    Ou seríamos nós, que nos questionamos, tão desamparados quanto eles, pela nossa inaptidão de discernir?  


domingo, 9 de julho de 2017

Evento de Julho/2017


Rodrigo Ungaretti Tavares, meu colega de cursos literários, enviou o convite para o lançamento de seu romance “Andarilhos”. 
E, eu fui!
O autor, fã de Érico Veríssimo, mergulha na temática tradicionalista, trazendo para a atualidade antigos hábitos e costumes dos homens da região sul do Brasil. Seu livro coloca o leitor direto no Pampa gaúcho, apresentando elementos de narrativa, dos grandes romances históricos. A doma, a ordenha, a bombacha de botas e esporas, o chimarrão, os bolichos, os estancieiros, estão presentes no livro de Tavares, que evolui com desenvoltura e com a mesma franqueza dos homens do campo.  “Andarilhos” nos leva a uma fiel incursão ao interior 
do Rio Grande do Sul, dos anos vinte.

 O lançamento aconteceu dia 4 de julho de 2017 
na Casamundi Cultura 
e conta com o selo da 
Martins Livreiro-Editora.